Certa noite, estávamos discutindo sobre nomes de bebês e rindo de como éramos teimosos.
Em seguida, um policial rodoviário estadual apareceu na minha porta e me disse que havia ocorrido um acidente.
Lembro-me muito pouco do funeral ou das semanas seguintes.
Tudo ficou confuso.
As pessoas trouxeram comida.
Meus parentes me abraçaram.
Alguém estava cuidando das flores.
Outra pessoa falou sobre seguros.
Eu assentia com a cabeça sempre que as pessoas falavam, porque não tinha forças para fazer mais nada.
Havia apenas um pensamento que me mantinha de pé.
Eu tive que sobreviver pelo meu bebê.
Quando minha filha finalmente nasceu dois meses depois, ela se tornou a razão pela qual eu saía da cama todas as manhãs.
O hospital nos deu alta depois de três dias.
Lembro-me de estar sentada no banco do passageiro com seu corpinho preso na cadeirinha ao meu lado, pensando em como era estranho trazê-la para casa sem o Daniel.
Ele passou meses preparando aquela casa para ela.
Ele pintou o quarto das crianças.
Montei o berço.
Ele mesmo restaurou as colunas da varanda porque disse que queria tudo perfeito antes da chegada da filha.
Mas quando entrei na nossa rua, senti que algo estava errado.
Os vizinhos estavam do lado de fora de suas casas.
Ninguém acenou.
Ninguém sorriu.
Todos estavam olhando na direção da minha casa.
Então eu vi.
Toda a fachada da minha casa era preta.
A varanda.
A porta.
O corrimão.
Até mesmo as colunas brancas que Daniel passou um verão inteiro lixando e repintando.
Tudo havia sido coberto durante a noite com uma espessa camada de tinta preta.
Parei de respirar.
Por um instante, cheguei a me perguntar se não teria entrado na rua errada.
Então minha filha começou a fazer birra atrás de mim.
Saí do carro e a abracei contra o peito enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.
Quem faria uma coisa dessas?
Meu marido estava morto havia dois meses.
Eu tinha acabado de dar à luz.
Alguém esperou até o exato dia em que eu trouxe a filha dele para casa para destruir a fachada da casa que ele tanto amava.
Não havia nenhuma mensagem pintada nas paredes.
Nenhuma janela quebrada.
Nada foi roubado.
Apenas tinta preta.
Os vizinhos já haviam chamado a polícia.
Dois policiais chegaram em poucos minutos.
Um deles conversava comigo enquanto outro caminhava pela propriedade.
Então o segundo policial parou ao lado da minha caixa de correio.
“Senhora?”
Algo mudou em sua voz.
Caminhei em sua direção, com minha filha ainda em meus braços.
Dentro da caixa de correio havia um pequeno envelope branco.
Sem carimbo.
Sem endereço.
Apenas um nome escrito de forma legível na frente.
Nora.
O nome da minha filha.
Ela tinha três dias de vida.
Quase ninguém sabia que nome eu tinha decidido dar a ela.
O policial olhou para mim.