Uma porta bateu com força. Corri pelo corredor e derrapei até a cozinha. Abri a porta dos fundos bem a tempo de ver Daniel e uma garota correndo para o bosque.
Corri atrás deles gritando o nome dele, mas eles eram muito rápidos.
Eu os perdi.
***
Dirigi-me diretamente à delegacia de polícia mais próxima e contei tudo ao policial de plantão.
Ele me perguntou: “Por que ele fugiu de você?”
Eu os perdi.
“Não sei”, respondi. “Mas preciso da sua ajuda para encontrá-lo antes que ele desapareça novamente.”
“Vou enviar um alerta, senhora.”
Sentei-me. Cada vez que a porta se abria, meu corpo inteiro enrijecia.
Eu ficava me fazendo as mesmas perguntas repetidamente: E se ele já estivesse no ônibus? E se ele já tivesse ido embora? E se essa fosse minha única chance?
Por volta da meia-noite, o policial se aproximou de mim.
“Preciso da sua ajuda para encontrá-lo antes que ele desapareça novamente.”
“Nós o encontramos. Ele estava perto da rodoviária. Estão trazendo-o agora mesmo.”
Uma onda de alívio me invadiu. “E quanto à garota que estava com ele?”
“Ele estava sozinho.”
Levaram Daniel para uma pequena sala de interrogatório.
Só me dei conta de que estava chorando quando senti as lágrimas no meu rosto. “Você está vivo. Você tem ideia do quanto eu fiquei preocupado? E quando finalmente te encontrei… Por que você fugiu de mim?”
Ele olhou para a mesa. “Eu não fugi de você.”
“E quanto à garota que estava com ele?”
“E daí…”
“Eu fugi por causa de Maya.”
E então ele me contou tudo.
Nas semanas que antecederam o desaparecimento de Daniel, Maya confidenciou-lhe que o seu padrasto estava cada vez mais agressivo e imprevisível. Ele gritava e quebrava coisas quase todas as noites.
“Ela disse que não conseguia mais ficar lá”, relatou Daniel. “Ela estava com medo.”
Então ele me contou tudo.
“Acho que o conheci. Fui à casa dela para perguntar se ela sabia o que tinha acontecido com você, e um homem abriu a porta. Ele me disse que Maya estava na casa dos avós dela.”
Daniel balançou a cabeça. “Ele mentiu.”
Eu me deixei cair na cadeira. “Todo esse tempo… mas por que ela não contou para uma professora? E o que isso tem a ver com você ter fugido de casa?”
“Ele mentiu.”
“Ela achou que ninguém acreditaria nela, e eu… eu não sabia o que fazer.” O rosto de Daniel se contorceu. “Ela veio para a escola naquele dia com a mochila já pronta. Ela me disse que ia embora naquela tarde. Tentei convencê-la a ficar, mas ela não me ouviu.”
“Então você foi com ela.”
“Eu não podia deixá-la ir sozinha, mãe. Eu queria ligar para você tantas vezes.”
“Por que você não fez isso?”
“Eu não sabia mais o que fazer.”
“Porque eu prometi à Maya que não contaria a ninguém onde estávamos.” Ele engoliu em seco. “Ela pensou que, se alguém nos encontrasse, a mandariam de volta.”
“E hoje, quando você me viu?”
“Eu tinha medo que a polícia a encontrasse.”
Passei as mãos pelos cabelos. “Tá bom… tá bom. Mas e aquele senhor? Ele disse que você pediu para ele te avisar se alguém perguntasse sobre a jaqueta.”
“Prometi à Maya que não contaria a ninguém onde estávamos.”