O silêncio tomou conta da sala.
Você… ouviu aquela ligação?
“Cada palavra”, respondeu Sarah. “O endereço. O jardim. A garagem. Sua promessa de dar minha casa para Rita.”
“Eu estava sob efeito de analgésicos fortes! Eu estava desorientado—”
“Você teve consciência suficiente para explicar que eu vivia apenas para cuidar de você, porque era incapaz de fazer qualquer outra coisa.”
Victor não tinha nada a dizer.
Sarah olhou em direção à janela.
“Ensinei no ensino fundamental por trinta e quatro anos. Ajudei centenas de crianças a aprenderem a ler. Cuidei dos meus pais enquanto eles estavam morrendo. Administrei nossa casa, paguei nossas contas e cuidei de você durante sua insuficiência renal terminal.”
Seus olhos voltaram-se para ele.
“E você reduziu toda a minha existência a um servo que lhe traz água.”
“Me perdoe”, Victor disse com a voz embargada. “Sarah, por favor.”
“Esse pedido de desculpas chega muito tarde.”
“Foi por isso que você destruiu tudo? Vingança?”
Sarah permaneceu em silêncio por um instante.
“Eu não queria outra mulher dormindo na minha cama, usando a porcelana da minha mãe e tratando a minha morte como uma porta de entrada conveniente para uma vida melhor. Tomei uma decisão perigosa e destrutiva, e não me orgulho disso. Mas eu não podia permitir que a casa que construí se tornasse um troféu para a sua amante.”
Você poderia ter machucado alguém!
“Eu me certifiquei de que a casa estivesse vazia”, disse Sarah em voz baixa. “Mesmo assim, foi uma péssima decisão.”
Victor esfregou a testa.
“E o dinheiro do seguro?”
“O pagamento da indenização foi efetuado após a conclusão da investigação.”
“E você doou quatro milhões de dólares?”
“Para o abrigo.”
“Por que?”
“Durante anos, fui voluntária lá. Jovens completam dezoito anos e são expulsos do sistema de acolhimento familiar sem família, economias, um computador portátil ou mesmo um depósito para um apartamento. Agora, a doação pode financiar moradia e educação por anos.”
Victor passou a mão trêmula pelos cabelos.
Você deixou alguma coisa para mim?
A pergunta escapou antes que ele pudesse impedi-la.
Sarah olhou para ele.
Não havia raiva em sua expressão.
Apenas profunda pena.
“Sim”, ela sussurrou.
Victor esperou.
“Deixei um rim para você.”
Seus olhos se fecharam enquanto um som estrangulado escapava de sua garganta.
“O carro ainda está registrado em seu nome”, continuou Sarah em voz baixa. “Você tem suas contas pessoais e sua empresa.”
“Rita me deixou.”
“Eu presumi que sim.”
“Ela disse que não era enfermeira.”
Sarah deu uma risadinha fraca e cansada.
“Pelo menos ela foi honesta com você desde o início.”
“Não zombe de mim, Sarah.”
“Não estou zombando de você. Estou simplesmente admirada que ela tenha lhe contado a verdade antes mesmo de você me contar.”
Victor baixou a cabeça.
“Eu ia te deixar.”
“Eu sei.”
Ele ergueu a cabeça bruscamente.