Pensei que ia para casa passar um dia normal com meus filhos. Em vez disso, um silêncio perturbador me fez perceber que algo estava muito errado antes mesmo que alguém dissesse uma palavra.
Dezesseis anos é muito tempo quando se ama alguém, e meu labrador amarelo, Frankie, esteve ao meu lado durante todos esses anos. Seu focinho estava ficando grisalho, ele subia as escadas mais devagar, mas seu rabo ainda balançava no chão toda vez que eu entrava em um cômodo.
Eu estava enxaguando a tigela de água dela quando minha filha de quatro anos, Jillian, entrou correndo na cozinha, de meias.
“Mamãe, o Frankie pode dormir na minha cama hoje à noite?”
Dezesseis anos é muito tempo quando se ama alguém.
“Querida, os joelhos dele não aguentariam na sua cama”, eu disse, ajoelhando-me para coçar atrás das orelhas dela. “Mas ele vai ficar no tapete do seu lado. Como sempre.”
Meu filho, Laurence, de seis anos, chegou logo atrás da irmã, arrastando um coelho de pelúcia por uma das orelhas.
“Frankie está velho”, disse ele em tom muito sério.
“É verdade”, concordei. “É por isso que estamos cuidando tão bem dele.”
“Os joelhos dela não aguentariam na sua cama.”
***
Eu ainda tinha nossa foto de casamento na lareira, aquela em que Frankie caminhava até o altar com uma almofadinha de cetim presa ao colar, nossas alianças brilhando à luz da tarde. Meu marido, Kenny, que o amava como se fosse da família, chorou quando ele chegou. Eu chorei ainda mais.
***
Kenny voltou da garagem com as mãos cobertas de graxa e me deu um beijo no topo da cabeça.
“Mamãe ligou de novo”, ele me disse em voz baixa para que as crianças não ouvissem.
Chorei ainda mais.
“O que ela queria desta vez?”
“A mesma coisa. Só dando uma passadinha rápida para ‘dar uma olhadinha nos netos’.”
Soltei um longo suspiro.
***
Minha sogra, Diane, tinha um talento especial para transformar uma visita em uma inspeção completa, e Frankie era sempre seu primeiro alvo.
“Ele está com mau cheiro. Está perdendo pelos. Não quero esse animal perto dos meus netos”, disse-me ela um dia, uma frase que repetia incessantemente bem na frente de Frankie, como se ele não pudesse ouvi-la.
“O que ela queria desta vez?”
E depois houve aquela tarde em que Diane atirou a bolsa nele para o espantar.
Kenny ficou muito quieto, e depois muito direto.
“Mãe, de agora em diante, você só virá quando a convidarmos. Não antes.”
Minha sogra não gostou disso. Ela respondeu: “Muito bem. Se é assim que você quer.”
Eu queria acreditar nela.
Kenny ficou muito quieto.