Parte 1:
Sempre presumi que a jovem gótica que visitava minha mãe todos os sábados fosse simplesmente uma nova amiga incomum.
Após a morte da minha mãe, descobri que o relacionamento deles havia começado por algo muito mais profundo.
E quanto mais eu aprendia, mais percebia que minha mãe havia passado anos carregando um arrependimento que nenhum de nós havia compreendido completamente.
Raven esperou até que quase todos tivessem saído do funeral antes de se aproximar de mim.
Durante toda a cerimônia, tentei não ficar olhando para ela.
Ela permaneceu perto do fundo da sala, usando um longo casaco preto, com anéis e piercings de prata que captavam a luz sempre que ela se movia.
Durante meses, eu a via sentada à mesa da cozinha da minha mãe todos os sábados, como se aquele lugar fosse dela.
Eu nunca tinha entendido o porquê.
Minha mãe havia partido, e Raven caminhava em minha direção com uma das mãos cerradas com força.
“Maeve.”
Eu me virei.
Seus olhos estavam inchados de tanto chorar.
“Obrigado por ter vindo”, eu disse.
Ela assentiu com a cabeça e abriu lentamente a palma da mão.
Uma pequena chave de latão repousava ali.
Fiz uma careta.
“O que é isto?”
“Sua mãe me pediu para entregar isso a você depois que ela morresse.”
Meu estômago se contraiu.
“O que ele abre?”
“Ela disse que você entenderia assim que encontrasse.”
Eu fiquei olhando para ela.
“Por que a mamãe não me deu pessoalmente?”
Raven hesitou.
“Talvez porque ela pensou que você guardaria em algum lugar seguro e evitaria descobrir para que servia.”
O comentário doeu.
“Você não me conhece.”
“Não”, respondeu Raven em voz baixa. “Mas Doris fez.”
Por um instante, a tristeza se transformou em irritação.
“Então por que minha mãe confiou isso a você?”
A expressão de Raven suavizou-se.
“Eu não a conhecia melhor do que você.”
“Então por que você tem a chave?”
“Porque eu conhecia uma parte dela que você não conhecia.”
Antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer, meu marido, Tom, apareceu carregando meu casaco.
Raven se afastou.
“Não esconda a chave em uma gaveta.”
Então ela foi embora.
Permaneci ali parado, com a chave de metal pressionada na palma da minha mão.
Uma pergunta não me saía da cabeça.
O que minha mãe estava escondendo?
A primeira vez que encontrei Raven, ela estava sentada na velha cadeira do meu pai, tomando chá na melhor porcelana da minha mãe.
Entrei na cozinha carregando compras e parei imediatamente.
“Mãe?”
Minha mãe, Doris, olhou para cima.
Aos setenta e três anos, ela ainda era mais feliz naquela pequena cozinha rodeada de livros, chá e o jardim lá fora.
“Aqui está você, Maeve.”
A mulher ao lado dela se virou.
Ela não devia ter mais de vinte e cinco anos.
Ela estava coberta de roupas pretas do pescoço até as botas.
Tatuagens percorriam ambos os antebraços, e vários piercings prateados refletiam a luz da tarde.
“Esta é a Raven”, disse a mãe. “Ela é uma amiga.”
Raven ficou de pé educadamente.
“Prazer em conhecê-lo.”
“Você também.”
Mas minha atenção sempre voltava para a cadeira do meu pai.
Raven percebeu.
“Será que estou sentado em algum lugar onde não deveria?”
